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Apenas um Caminho
( 423 visitas )

Publicado em: 28/8/2013
Por: Silvio Dutra
Igreja Orgânica de Jesus na Abolição - Rio de Janeiro - RJ
25dutra@gmail.com
 

Por J. C. Ryle 

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4: 12) 

Essas palavras são impressionantes, mas conseguem ser ainda mais, depois de considerarmos quando e por quem foram pronunciadas. Foi um cristão pobre e desamparado quem as falou, no meio de um perseguidor conselho judaico. Essa foi uma verdadeira confissão a Cristo.

Tais palavras foram balbuciadas pelos lábios do apóstolo Pedro. Algumas semanas antes disso, esse mesmo homem abandonou Jesus e fugiu; além de negá-lo três vezes. Há um novo espírito nele, agora. Ele se levanta corajosamente diante de sacerdotes e saduceus, dizendo-lhes a verdade, “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”.  

I. Primeiro, deixe-me apresentar a doutrina do texto.

Vamos nos certificar de que entendemos corretamente o que o apóstolo Pedro quis dizer. Sobre Cristo, ele fala: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”. O que significa isso?

Ele quer dizer que ninguém pode ser salvo do pecado e da sua culpa, nem do poder e das consequências que ele acarreta, a não ser por Jesus Cristo.Ele quer dizer que ninguém pode ter paz com Deus Pai e obter perdão nesse mundo, a fim de escapar da ira que virá no porvir, o inferno, a não ser através do resgate e da intercessão de Jesus Cristo.

A rica provisão de Deus para a salvação dos pecadores está em Cristo – e nele somente; assim como também apenas em Cristo as misericórdias de Deus descem dos céus à Terra.

Apenas o sangue de Cristo pode nos limpar; apenas sua retidão pode nos prover e é mérito apenas dele termos um lugar no céu. Judeus e gentios, educados ou não, reis e pobres, todos devem ou ser salvos por Jesus ou caminhar para a perdição eterna.

O apóstolo afirma enfaticamente: "porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”. Não há nenhuma outra pessoa comissionada, selada e designada por Deus Pai para ser o Salvador dos pecadores, apenas Cristo. As chaves para a vida e para a morte foram confiadas em Suas mãos, então todos os que querem ser salvos, devem ir a Ele.

No dia em que veio o dilúvio sobre a terra, havia apenas um lugar seguro: aarca de Noé. Todos os outros lugares ou dependências – montanhas, torres,árvores, jangadas, barcos – eram inúteis. Da mesma forma, há apenas um esconderijo para onde o pecador que deseja escapar da fúria de Deus deve ir: Cristo.

Havia apenas um homem para quem os egípcios poderiam recorrer nos tempos de escassez: José. Era perda de tempo buscar qualquer outra pessoa. Assim, também há apenas um para quem as almas famintas devem se dirigir, se não quiserem ir para o inferno: Cristo. Essa é a doutrina do texto. “Não há salvação, senão por Jesus Cristo. Nele há abundância salvífica de tal forma que até para o pior dos pecadores há salvação, entretanto, fora dele, não há salvação alguma”. Ela está em perfeita harmonia com as próprias palavras de nosso Senhor em João, “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.”(João 14: 6).

Paulo afirma o mesmo aos coríntios: "Porque ninguém pode colocar outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo." (I Co 3:11). João também afirma o mesmo em sua primeira epístola: “E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho.

Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida” (I João 5: 11,12).

Todos esses textos chegam à mesma conclusão: não há salvação, a não ser por Jesus Cristo.Lembre-se de que você deve entregar a salvação de sua alma a Cristo e apenas a Ele. Você deve se desfazer completamente de qualquer outra esperança ou fé, você não pode descansar parcialmente nEle, fazer parcialmente o que estiver ao seu alcance, frequentar parcialmente a igreja e parcialmente receber os sacramentos. Para que você seja justificado,

Cristo deve ser tudo e único. Essa é a doutrina do texto. Lembre-se de que o céu está à sua frente e que Cristo é a única porta pela qual você pode entrar. O inferno está sob você e apenas Cristo pode libertá-lo dele, o diabo está a sua procura e Cristo é o único refúgio contra sua ira e acusações. A lei está contra você e apenas Cristo pode redimi-lo, o pecado lhe oprime e Cristo é o único que pode derrubá-lo. Essa é a doutrina do texto. 

II. Deixe-me mostrar, agora, algumas razões por que a doutrina desse texto é correta.

Posso encurtar a segunda parte desse tratado com um simples argumento:

“Deus diz assim”. “Um texto claro”, disse um antigo sacerdote, “é tão bom quanto mil motivos”.

Mas não farei isso. Gostaria de me opor às objeções que estão dispostas a crescer em seus corações contra essa doutrina, mostrando os firmes fundamentos nos quais ela se sustenta.

(1) Permita-me, então, dizer que a doutrina desse tratado é correta, porquehomem é o que o homem é.

O que o homem é? Existe uma resposta clara e devastadora, que envolve toda a raça humana: o homem é um ser pecador. Todos os filhos de Adão, nascidos nesse mundo, seja lá qual for seu nome ou nação, estão corrompidos, são maus e contaminados aos olhos de Deus. Seus pensamentos, suas palavras, seus caminhos, suas ações, são sempre defeituosas e imperfeitas.

Não há nenhum país sequer na face da Terra, onde o pecado não reine? Não há um vale feliz ou uma ilha isolada onde a inocência possa ser vista? Não há tribo alguma na terra onde, distante da civilização, do comércio, do dinheiro, das armas, do luxo e dos livros, possamos encontrar ostentadas a decência e a pureza? Não, leitor, não há. Examine todas as viagens que possa lembrar, de Colombo a Cook, e você verá a verdade no que estou dizendo. As mais isoladas ilhas do oceano Pacífico - ilhas afastadas de todo o resto do mundo, ilhas cujos habitantes desconheciam Roma e Paris, Londres e Jerusalém – foram encontradas cheias de impurezas, crueldades de idolatrias. As pegadas do diabo foram rastreadas em todas as costas. A veracidade do terceiro capítulo de Gênesis pode ser vista em todos os lugares. Os bárbaros podiam ser ignorantes em tudo, mas nunca o foramquando o assunto em questão era o pecado.

Há, entretanto, homens e mulheres no mundo que estão livres dessa natureza corrupta? Não houve almas aqui e acolá que viverem vidas sem defeitos? Não houve alguns, alguns poucos, que fizeram tudo o que Deus ordenou e, portanto, provaram que a perfeição é possível? Não, leitor, não houve alma alguma assim. Observe todas as biografias e vidas dos cristãos mais santos, perceba como os mais brilhantes dos filhos de Deus sempre tiveram uma noção profunda de seus próprios defeitos e de sua natureza corrupta. Eles gemem, lamentam, suspiram e choram pelas suas fraquezas, esse é o ponto comum entre eles. Patriarcas e apóstolos, pais e reformadores, episcopais e presbiterianos, Lutero e Calvino, Knox e Bradford, Rutherford e Bispo Hall, Wesley e Whitefield, Martyn e M’Cheyne, todos sofreram com seus próprios pecados. Quanto mais conhecimento eles tinham, mais humildes e simples eram; quanto mais santos eram, mais pareciam se desmerecer e glorificar-se em Cristo.

O que tudo isso pode provar? A meu ver, prova que a natureza humana é tão suja e corrupta que se dependesse dela, nenhum homem seria salvo. A história da humanidade não tem esperança alguma sem um Salvador. É necessário um Mediador, um redentor, um advogado, a fim de transformar tão pobres pecadores em seres aceitáveis a Deus, e isso não podemos encontrar em lugar algum, exceto em Jesus Cristo. O céu para o homem que não tem um Redentor, paz com Deus para o homem sem um Intercessor, vida eterna para o homem sem um Salvador - resumindo, salvação sem Cristo - tudo isso me parece completamente impossível.

Coloco esses pensamentos diante de vocês e peço-lhes para que os considerem. Sei que é dificílimo compreender a pecaminosidade do pecado. Dizer que somos todos pecadores, é uma coisa, mas ter uma ideia de como o pecado é visto por Deus, é outra bem diferente. O pecado já está tão presente em nossa vida, que não nos permite vê-lo como é, não sentimos nossa própria deformidade moral. Somos como aqueles animais em criação, vis e asquerosos a nosso ver, mas não para eles mesmos. É da natureza deles serem repugnantes, por isso nem sequer percebem. Nossa corrupção é uma parcela de nós mesmos e, quando muito, temos uma vaga compreensão de sua intensidade.

Entretanto, disso podem estar certos, se pudessem observar suas vidas com os olhos dos anjos que nunca caíram, jamais duvidariam, em momento algum, do que falo agora. Não é possível que alguém, conhecendo a natureza corruptível do homem, não veja que a doutrina aqui exposta é correta e verdadeira. Não há salvação, se não por Cristo.

(2) Deixe-me dizer algo mais: a doutrina do nosso texto é correta, porque Deus é o que é.

E o que é Deus? Essa é uma pergunta interessante. Sabemos algo de Seus atributos: Ele não teve testemunha na criação e com misericórdia nos revelou muito a seu respeito nas Escrituras. Sabemos que Deus é espírito – eterno, invisível e todo poderoso - o criador de todas as coisas e preservador de tudo; ele é santo, justo e onisciente, infinito em misericórdia, em sabedoria e em pureza.

Entretanto, como são baixas e simplórias nossas ideias, quando tentamos descrever a forma com que acreditamos que Ele seja! Quantas palavras e expressões usamos, mas nem sequer conseguimos descrevê-lo! Quantas coisas nossa língua fala sobre Ele, mas que nossa mente não consegue compreender!

Vemos tão pouco nEele e conhecemos tão pouco d`Ele. Nossas palavras sãotão vis e torpes, que não conseguimos transmitir ideia alguma sobre Deus, que fez esse mundo grandioso do nada e para quem um dia é o mesmo que mil anos, e mil anos, um dia! Nosso intelecto é tão fraco e inadequado para entendê-lo, porque Ele é perfeito em todas as suas obras, perfeito no muito e no pouco, perfeito em dizer os dias e as horas em que Júpiter, com todos os seus satélites, viajará ao redor do sol e perfeito ao criar o menor dos insetos que se arrasta no nosso globo. Estamos tão ocupados que não compreendemos o Ser que comanda tudo, no céu e na Terra, através da providência universal, ordenando ascensão e queda de nações e dinastias, como Nínive e Cartago; ordenando a extensão exata com a qual homens como Alexandre, Tarmelão e Napoleão poderiam expandir suas conquistas; ordenando os últimos passos na vida do mais humilde cristão entre os povos; tudo isso ao mesmo tempo, sem parar, perfeitamente. Tudo isso por Sua glória.

O cego não pode julgar as pinturas de Rubens ou Ticiano; o surdo não pode escutar as lindas melodias de Handel; o groenlandês tem apenas uma noção do que é o clima nos trópicos; o australiano selvagem tem uma concepção distante de locomotiva, logo, seja como for a sua descrição, não há lugar na mente dos humanos para absorver essas coisas, eles não têm inclinação para compreendê-las, não possuem dedos imaginários para agarrá-las. De igual modo, as melhores e mais brilhantes ideias que o homem pode formar a respeito de Deus, comparadas à realidade que um dia presenciaremos, são fracas e fantasiosas.

Entretanto, leitor, isto, acredito, está muito claro: quanto mais calmamente um homem pensa no que Deus realmente é, mais ele deve perceber a distância imensurável entre ele e Deus; quanto mais ele medita, mais ele deve ver que há um abismo profundo entre ambos. Sua consciência lhe dirá, caso ele a deixe falar, que Deus é perfeito, mas ele, não; que Deus é alto, ele, baixo; que Deus é majestade gloriosa, ele, um verme; e que se ele quiser apresentar-se diante de Deus no julgamento confortavelmente, ele precisará de uma ajuda poderosa, caso contrário, não será salvo.

O que seria isso, senão a própria doutrina desse texto? O que seria isso, senão chegar à conclusão que lhes tenho lançado insistentemente? Se temos que prestar contas com alguém como Deus, é melhor termos um salvador poderoso! Para sermos entregues a um ser tão glorioso como Deus, devemos ter um advogado e um amigo todo-poderoso ao nosso lado, que poderá nos defender de todas as acusações a que nos submetam e advogar nossa causa com Deus em termos justos. Queremos isso, nada mais que isso. Noções vagas de misericórdia jamais nos darão a verdadeira paz. Um salvador, amigo e advogado como esse, não pode ser encontrad em mais ninguém, senão em Jesus Cristo.

(3) Em terceiro lugar, deixe-me dizer-lhes que essa doutrina é correta, porque a Bíblia é o que ela é.

Na Bíblia, de Gênesis a Apocalipse, há apenas uma descrição sobre a forma com que o homem pode ser salvo. Ela é sempre a mesma: apenas pelo amor de nosso Senhor Jesus Cristo, pela fé e não por boas obras ou merecimentos.

Primeiro você a vê revelada vagamente, ela aparece meio enturvada em algumas promessa, mas lá está.

Depois, ela aparecerá com mais clareza, é ensinada pelos figuras e símbolosda lei de Moisés, o professor da antiga dispensação.

Você a terá ainda mais claramente depois. Os profetas viram por meio de visões o Redentor que estava por vir.

No final, você a tem de forma óbvia, na clareza do Novo Testamento: Cristo encarnado, crucificado, ressuscitado e pregado pelo mundo.

Entretanto, uma corrente de ouro corre através de todo o livro: nenhuma salvação existe, exceto por Jesus Cristo. As feridas na cabeça da serpente no dia da queda, as vestimentas de nossos primeiros pais com peles, os sacrifícios de Noé, Abraão, Isaque e Jacó, a páscoa e todas as particularidades das leis judaicas, o sumo sacerdote, o altar, a oferta diária do cordeiro, o Santo dos santos onde só se entrava pelo sangue, o bode expiatório, as cidades de refúgio, tudo isso prova a verdade descrita no texto, todos pregam alto e em bom som que a salvação só acontece através de Jesus Cristo.

Essa verdade, de fato, parece-me ser o grande objetivo da Bíblia e todas as outras partes e porções das Escrituras servem justamente para ilustrá-la.

Não consigo ver o perdão de Deus nessas ideias, a não ser por meio de umaconexão com essa verdade. Se soubesse de alguma alma que foi salva sem ter tido fé no Salvador, talvez deixasse de falar com tanta certeza, mas quando vejo que a fé em Cristo – no Cristo crucificado – era um dos distintivos na religião de todos os que foram para o céu; quando vejo Abel ganhando a Cristo com seu sacrifício numa parte da Bíblia; os santos em glória numa visão de João se regozijando em Cristo; um homem como Cornélio, devoto e temente a Deus, dava esmolas e orava (não digo que por isso ele foi salvo, mas ordenou o envio de Pedro a fim de escutar a respeito de Cristo); quando vejo todas essas coisas, sinto-me compelido a crer que a doutrina desse texto é bíblica. Não há salvação, não há um caminho para o céu, exceto através de Cristo Jesus.

Leitor, não sei como você utiliza a Bíblia, se você a lê ou não, se a lê por completo ou apenas algumas partes, mas isso é certo: se você lê e acredita na Bíblia, você terá dificuldades em escapar dessa doutrina.Cristo é o caminho, o único caminho; Cristo é a verdade, a única verdade; Cristo é a vida, a única vida.

Essas são as razões que confirmam a veracidade do que está escrito nesse texto. O que o homem é, o que Deus é, o que a Bíblia é, tudo isso nos leva à mesma conclusão: não há salvação sem Cristo. Agora deixo essas razões com você e passo adiante. 

III. Em terceiro e último lugar, deixe-me mostrar as consequências que surgem junto com a doutrina.

Poucas partes desse assunto são mais importantes do que esta. A verdade que venho dizendo nesse texto pesa tanto sobre a humanidade que seria muita presunção de minha parte não comentá-la. Se Cristo é o único caminho para a salvação, como devemos nos sentir em relação a tantas pessoas nesse mundo? Esse é o ponto sobre o qual agora falarei.

A verdadeira caridade, para mim, é contar o máximo de verdades que pudermos. Não acredito ser caridade esconder as consequências de um texto como esse e fechar nossos olhos contra elas. Chamo seriamente todos àqueles que acreditam que a salvação acontece apenas por meio de Cristo, o único nome debaixo do céu pelo qual podemos ser salvos. Chamo todos vocês e peço-lhes para que me escutem enquanto exponho todas as consequências que aparecem junto a esse texto.

De uma coisa estou certo, não temos mérito nenhum na salvação. Minha opinião é que o mais alto arcanjo – num grau bem distinto do nosso, claro – deverá sua posição a Cristo e que tudo no céu, assim como tudo na terra, estará em débito com o nome de Jesus.

Os Socinianos5 dizem que Cristo foi meramente um homem e que seu sangue teve tanto valor quanto o de qualquer outro, que sua morte na cruz não redimiu os pecados humanos e que fazer acontecer é o caminho para o céu, e não crer. Essa crença é ruína para a alma humana. Parece-me atacar a raiz de todo o plano da salvação que Deus revelou na Bíblia e praticamente anula a melhor e maior parte das Escrituras. Ela destrói o sacerdócio do Senhor Jesus e tira-o de seu ofício, ela converte a lei de Moisés e as ordenanças em algo sem valor algum. Faz parecer que o sacrifício de Caim era tão bom quanto o de Abel e deixa o homem à deriva num mar de incerteza, ao tirar-lhe a obra já terminada do nosso divino Mediador.

Se você ama sua vida, tenha cuidado com a menor das tentativas em depreciar a Cristo, o Seu ofício e Suas obras. O único nome pelo qual você pode ser salvo é o nome acima de todos os nomes, portanto, qualquer ataque contra Ele, é um insulto ao Rei dos reis. A salvação da sua alma foi colocada em Cristo por Deus Pai, e em nenhum outro. Se ele não fosse realmente Deus, jamais teria conseguido executá-la e não haveria salvação alguma.

Outra consequência a ser aprendida do nosso texto é o grande erro cometido por aqueles que adicionam qualquer característica a Cristo, como necessária à salvação.

É fácil professarmos nossa crença na Trindade e reverenciar nosso Senhor Jesus Cristo e, ainda assim, adicionar algo a Ele, deixando de lado toda a doutrina do texto e negando-a de forma tão branda.

Todos que agem dessa forma me parecem declarar que a salvação não é encontrada simples e unicamente em Cristo, parecem adicionar outros nomes ao nome de Jesus, pelos quais homens devem ser salvos. Até mesmo o nome de suas denominações, tudo isso me parece querer responder à pergunta, “O que devo fazer para ser salvo?”, não apenas com “Acredite no Senhor Jesus Cristo”, mas também “venha e junte-se a nós”.

Peço para que os cristãos verdadeiros tomem cuidado com tal extremismo, não importa a forma com que ele apareça. Dizendo isso, não serei mal interpretado. Quero que todos sejam firmes em suas visões eclesiásticas e que estejam certos de sua precisão. Tudo o que peço é que não ponham essas coisas no lugar de Cristo ou as coloque perto dEle ou fale delas como algo necessário para a salvação. Por mais doce que nossas visões nos possam parecer, devemos tomar cuidado para não colocá-las entre o pecador e o Salvador. Resumindo, tomemos cuidado para não adicionar algo à doutrina do texto. No tocante aos assuntos da Palavra de Deus, é um grande pecado tanto adicionarmos quanto retirarmos algo dela.

A última consequência a ser aprendida desse texto é o absurdo em supor que devemos nos satisfazer com o estado da alma humana, se ele é apenas sincero.

Essa é uma heresia bem comum, na verdade, e uma contra a qual sempre devemos estar de guarda. Há muitos que dizem, "não temos nada a ver com a opinião de terceiros. Eles podem estar enganados, mas também é possível que estejam certos e nós, errados. Tudo isso soa liberal e muito caridoso, da forma como as pessoas gostam de fantasiar suas visões.

Entretanto, visões como essas são completamente contraditórias à Bíblia, não importa o que defendam. Não vejo na Bíblia nenhuma história sequer falando que alguém foi ao céu simplesmente por ser sincero, ou foi aceito por Deus apenas pela sua determinação em manter suas visões. Os sacerdotes de Baal eram sinceros quando se cortavam com facas e lancetas até seu sangue jorrar, ainda assim, Elias ordenou que fossem tratados como idólatras. Manassés, rei de Judá, foi, sem dúvida alguma, sincero quando queimou seus filhos no fogo de Moloque, mas quem não sabe o quanto ele se culpou por isso? O apóstolo Paulo, quando fariseu, era sincero ao destruir igrejas, mas quando abriu os olhos, lamentou tudo o que havia feito.

Tenhamos cuidado ao aceitar que a sinceridade seja o indispensável e que

não temos direito algum de falar do estado espiritual do homem, simplesmente porque as opiniões defendidas por ele são sinceras. Se é esse o nosso pensamento, então os sacrifícios Druídicos, o Carro do Krishna, o costume hindu de queimar a viúva com os restos mortais de seu marido, os

assassinatos sistemáticos dos malfeitores Thugs indianos e as fogueiras de Smithfield poderiam ser defendidos, mas um pensamento assim não vingará, ele não suportará os testes das Escrituras. Caso você concorde com esses pensamentos, então aproveite para jogar fora sua Bíblia. Sinceridade não é Cristo, portanto, sinceridade não pode perdoar os pecados.

Tenho certeza de que essas consequências podem parecer desagradáveis para muitos de vocês que me lêem. Entretanto, digo-as de forma ponderada e deliberada. Afirmo enfaticamente que uma religião sem Cristo, uma religião que O deixa de lado, uma religião que adiciona algo a Ele, uma religião que coloca sinceridade no lugar dEle, é uma religião perigosa e deve ser evitada, porque é contrária à doutrina de nosso texto.

Você pode até não gostar disso e sinto muito se esse for o caso. Você pode me considerar severo, avaro, cabeça-dura, intolerante e por aí vai, mas não me importo, porque você não poderá dizer que a minha doutrina não é a da Palavra de Deus. Essa doutrina é a crença de que Cristo é o único necessário para nossa salvação e, sem Ele, não há salvação alguma.

É minha obrigação prestar depoimento contra o espírito dos dias em que vivemos e adverti-lo contra essa doença. Atualmente, não temo o ateísmo tanto quanto temo o panteísmo. Não é o sistema que diz que nada é verdade, mas o que diz que tudo é verdade; não é o sistema que diz que não há um salvador, mas o que diz que há vários salvadores e muitos caminhos para obter a paz. É o sistema que é tão liberal, que não ousa dizer que algo é falso, é o sistema que é tão caridoso, que aceitará a veracidade de tudo, é o sistema que parece pronto a honrar outros tanto quanto o nosso Senhor Jesus Cristo, classificá-los todos iguais e esperar o bem de todos. É um sistema tão escrupuloso quanto o sentimento dos outros, que nunca podemos dizer que está errado; é um sistema tão liberal, que chama um homem de fanático, se ele disser "Sei que minhas visões são corretas”. Esse é o sistema que tenho pavor hoje em dia. Esse é o sistema que desejo enfaticamente testificar contra e denunciá-lo.

Que sistema é esse, senão o ato de curvar-se perante um ídolo chamado liberalismo? Que sistema é esse, senão o sacrifício da verdade a fim de dar lugar à caridade? Tome cuidado com isso, leitor, cuide para que a tórrida corrente da opinião pública não o leve embora. Se você acredita na Bíblia ou for um consistente cristão, tome cuidado. Deus falou ou não conosco na Bíblia? Ele nos mostrou o caminho para a salvação plena na Bíblia ou não? Ele nos explicou o perigo de não andar por esse caminho ou não? Preparem suas mentes, encarem essas perguntas e respondam-nas honestamente. Diga-nos que há outro livro inspirado, fora a Bíblia, e assim entenderemos o que você quer dizer; diga-nos que a Bíblia não foi inspirada, e assim saberemos onde lhe encontrar, mas admita que a Bíblia, por completa, e nada mais que a Bíblia, é a palavra de Deus, e então não saberei dizer como você pode escapar da doutrina desse texto. Que o Senhor o livre do liberalismo que afirma que todos estão corretos, da caridade que proíbe dizermos que alguém está errado e da paz que é trazida às custas da verdade.

Falo por mim mesmo, não encontro descanso entre um cristianismo categórico e uma infidelidade categórica, seja lá o que outros pensem. Não encontro refúgio algum entre eles, nem mesmo casas capazes de abrigar minha alma cansada. Posso ver consistência num infiel, mesmo tendo pena dele, assim como também posso ver consistência no apoio à verdade evangélica, entre entretanto, não consigo enxergar um meio-termo entre eles. E isso eu digo sem receio algum. Que eu seja chamado de conservador e severo, mas não consigo escutar a voz de Deus fora da Bíblia e não consigo ver salvação para pecadores nela, senão por meio de Jesus Cristo. No nosso Senhor, vejo abundância, mas fora dele, não. E para aqueles que confessam uma religião em que Cristo não é tudo, tenho um palpite muito desconfortável sobre sua segurança. Não digo, em momento algum, que nenhum deles está salvo, mas afirmo que os que são salvos, assim o são pelas suas discordâncias quanto a seus próprios princípios e apesar de seu sistema.

O homem que escreveu a famosa frase:

“Não pode estar errado, aquele cuja vida está na retidão”, foi um grande poeta, sem dúvida alguma, mas também um grande infeliz.

Deixe-me concluir com algumas palavras para nosso uso.

Primeiro de tudo, se não há salvação, senão por Jesus Cristo, certifique-se de que você se interessa por ela. Não se contente em ouvir, aprovar, consentir com a verdade, mas parar por aí. Busque ter um interesse pessoal nessa salvação, agarre-a na fé, pelo bem de sua alma; não descanse até que você sinta a paz com Deus, oferecida por Jesus; não pare até que você seja de Cristo e Cristo seja seu. Se houvesse duas, três ou até mais formas de se chegar ao céu, não haveria necessidade de pressionar tudo isso sobre você. Entretanto, se há apenas um caminho, então você não deve ficar surpreso quando digo, "certifique-se de que você está nele”.

Segundo, se não há salvação, exceto por meio de Cristo, pregue isso a todas as almas que ainda não o conhecem como seu Salvador. Há milhares nessa condição miserável, milhares em terras estranhas, milhares no seu próprio país, milhares que ainda não confiam em Cristo Jesus. Se você for um verdadeiro cristão, você se entristecerá por elas, você orará por elas, você trabalhará por elas, enquanto ainda há tempo. Você realmente acredita que Cristo é o único caminho para o céu? Então viva conforme sua crença! Olhe para o seu círculo familiar e de amizade, conte um por um e veja quantos ainda não estão em Cristo. Faça o bem para eles de alguma forma, aja como agiria um homem que acredita que seus amigos estão em perigo.

Não se contente com o fato de serem dóceis e amáveis, gentis e bem-humorados, de boa conduta moral e corteses, seja desprezível para com eles, até que se voltem a Cristo e confiem Nele, porque é isso o que você deve fazer. Não deixe sozinho alguém que não tenha Cristo, caso você tenha oportunidades de alcançá-lo. Sei que tudo isso pode parecer entusiástico e fanático, quem dera houvesse mais disso no mundo, porque qualquer ação é melhor do que uma indiferença silenciosa para com as almas alheias, como se todas estivessem no caminho para o céu. Não vejo nada que prove tanto o quanto a nossa fé é fraca, quanto nossa despreocupação com a condição espiritual daqueles que nos rodeiam.

Terceiro, se não há salvação, senão por Cristo, então amemos todos aqueles que verdadeiramente amam o Senhor Jesus e o exaltam como seu Salvador.

Não se afaste ou olhe as pessoas com desprezo, simplesmente porque não concordam com tudo o que dizem. O homem pode ser um presbiteriano escocês livre, ou independente, wesleyano, ou batista, ainda assim, amemo-los, caso eles amem a Cristo e colocam-no no lugar merecido. Estamos a caminho de um lugar onde denominações, formas e estilos de igrejas já não serão mais nada, porque Cristo será tudo; preparemo-nos logo para esse lugar, amando a todos os que estão nesse mesmo caminho conosco.

Esta é a verdadeira caridade: acreditar em todas as coisas e ter esperança, contanto que estejam conforme as doutrinas bíblicas e Cristo seja exaltado.

Cristo deve ser o único padrão pelo qual todas as opiniões são medidas.

Honremos todos os que o honram, mas não nos esqueçamos que o mesmo apóstolo Paulo que escreveu sobre caridade, também disse, “Se alguém não ama o Senhor Jesus Cristo, seja anátema.”. Se nossa caridade e generosidade são maiores do que aquela exposta na Bíblia, então não valem nada.

Amor indiscriminado não é amor e uma aprovação indiscriminada a todas as religiões não passa de outro nome para infidelidade. Estendamos nossa mão a todos aqueles que amam o Senhor Jesus, mas tomemos cuidado ao irmos além dessa condição.

Por último, se não há salvação por outro meio, senão por Cristo, você não deve se surpreender se ministros do evangelho pregam muito sobre Ele. Não podemos dizer-lhe muito sobre o nome que está acima de todos os nomes, você não escuta sobre Ele em demasia. Talvez você escute muito sobre controvérsia em nossos sermões – pode ser que você escute muito sobre homens e livros, obras e deveres, formas e cerimônias, sacramentos e ordenanças – mas há um assunto que nunca é demais explorar, e esse assunto é Cristo.

Se estivermos cansados de pregar sobre Ele, então somos falsos ministros, se você está cansado de ouvir sobre Ele, então sua alma está num estado péssimo de saúde. Quando pregamos sobre Cristo durante toda a nossa vida, ainda assim parte de Sua excelência não terá sido dita! Quando você o vir face a face, no dia de Sua segunda vinda, você verá que Ele é extraordinariamente mais do que o que seu coração poderia imaginar.

Termino com as palavras de um escritor antigo, as quais subscrevo:

“Não conheço nenhuma religião verdadeira, a não ser o cristianismo, e nenhum cristianismo verdadeiro, a não ser a doutrina de Cristo. A doutrina de Sua pessoa divina, de Sua obra divina, de Sua retidão divina, de Seu espírito divino. Doutrina aceita apenas pelos que são verdadeiramente Dele. Não conheço nenhum ministro fiel a Cristo, a não ser aqueles que fazem dEle o seu motivo para viver, o seu chamado e sua razão para louvar, por causa de Sua graça e glória salvífica por amor aos homens. Da mesma forma, não conheço nenhum cristão verdadeiro, que não seja aquele unido a Cristo pela fé e pelo amor, para a glorificação do nome de Jesus Cristo, na beleza da santidade evangélica. Ministros e cristãos com esse espírito foram, por muitos anos, meus irmãos e companheiros, e espero que seja sempre assim, onde quer que a mão de Deus me guie". 

(Texto original reduzido e adaptado por Silvio Dutra)

 
 
 
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