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Jesus e Melquisedeque
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Publicado em: 11/11/2002
Por: Rev. Ronaldo Éber de Oliveira Brito
Igreja Presbiteriana do Jardim Elba (http://www.jardimelba.cjb.net) - São Paulo - SP
ipjelba@yahoo.com.br
 

Textos: Hebreus 5:6-10 6:20 7:1-10 Salmo110:4 Gênesis 14:17-20

I) Introdução
A apresentação de Melquisedeque em Hebreus 7:1-10 assume a forma de um midraxe homilético, no qual a exposição da Escritura determina a estrutura do argumento. A unidade exibe cinco características dessa forma distintiva: 1)o ponto de partida para a interpretação é um texto do VT; 2)a exposição é homilética em caráter; 3)a autor é atento aos detalhes do texto em sua análise do mesmo; 4)o texto se torna relevante a atual situação da comunidade através da interpretação feita pelo autor e 5)o ponto de interesse é o relato da narrativa, não os detalhes dela.
A clara alusão do Salmo 110:4 na descrição de Cristo como nosso Sumo-Sacerdote celestial em Hebreus 6:20 põe a base para o midraxe que temos em 7:1-10. Nesse texto o autor introduz Gênesis 14:17-20 para identificar o Melquisedeque do Salmo 110:4 (verso 1 a 3) e para exibir a base na história para a superioridade do Sumo-sacerdócio de Cristo dobre o sacerdócio levítico (versos 4 a 10).
A base do midraxe em 7:1-10 é o princípio hermeneutico de gezera sawa, isto é, se duas passagens separadas da Escritura contém a mesma palavra, uma análise verbal providenciará suficiente razão para explanar um texto à luz do outro (verificar Hebreus 1:5
3:7-11 13:5-6).
O texto dominante em 7:1-10 é Gênesis 14:17-20, porém no capítulo 7 como um todo o texto de Gênesis é subordinado ao Salmo 110:4.
Outra característica do midraxe é que ainda o silêncio da Escritura muitas vezes está carregado de significado. Temos essa compreensão nos versos 3 e 8.
Em Hebreus 7:1-10 a revelação contida no Salmo 110:4 é o cumprimento de algumas implicações escatológicas de Gênesis 14:17-20. A alusão do Salmo 110:4 em Hebreus 6:20 é transicional, levando para a exposição do Sumo-Sacerdócio de Cristo em 7:1-28. As frases iniciais em 7:1 claramente se referem ao anúncio do assunto em 6:20 e servem para introduzir a nova unidade.
A estrutura do capítulo confirma o plano cuidadoso do autor: 7:1-10 providencia uma interpretação de Gênesis 14:17-20 e 7:11-28 dirige a sua atenção para o significado de cada frase no Salmo 110:4.



II) ANÁLISE
1. A figura de Melquisedeque: a apresentação de Melquisedeque (Melchisédek é a transcrição do nome segundo a ortografia grega da carta. A transcrição correspondente ao hebreu seria "Melksédeq"), por onde começa a exposição tem a característica de desconcertar o leitor de nossos dias.
Deste personagem, que se menciona sómente em dois textos muito breves do VT, nosso autor dá uma descrição que parece converte-lo em um personagem misterioso: "sem pai, nem mãe, nem genealogia, sem começo de dias, nem fim de vida..., permanece sacerdote para sempre (7:3).
Já no relato de Gênesis, o caráter imprevisível da aparição de Melquisedeque suscita numerosas questões e favorece todo tipo de especulações mais ou menos problemáticas. Um manuscrito fragmentário, que se encontrou na gruta XI de Qumrâm, apresenta a Melquisedeque como um ser celestial a quem pertence o poder de eliminar a "Belial e aos seus espíritos cúmplices" e de executar os juízos de Deus. Esse manuscrito, convém assinalar, não diz nada sobre o sacerdócio de Melquisedeque e toma uma orientação bem distinta da Carta aos Hebreus. Porém mostra como a figura de Melquisedeque exercia naquela época uma verdadeira fascinação. Longe de diminuir, essa fascinação foi crescendo em certos ambientes cristãos após a leitura da Carta aos Hebreus. Se chegou a transformar a Melquisedeque num ser eterno, numa "grande potência" sobrenatural, uma primeira encarnação do Verbo de Deus e até um Ser divino superior a Cristo, ou também uma aparição do Espírito Santo.

2) Verso 1 a 3
Aqui Melquisedeque é apresentado recordando primeiramente todos os dados de Gênesis 14:18-20, isto é, os títulos atribuidos a este personagem e os atos que lhe dizem respeito, comentando a seguir os títulos mencionados, e reservando para a subseção sequinte o comentário dos atos.
"Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão quando
voltava da matança dos reis, e o abençoou; para o qual também Abraão separou o dízimo de tudo (primeiramente
se interpreta rei de justiça, depois é rei de Salém, ou seja rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia; que não
teve princípio de dias, nem fim de existência, entretanto feito semelhante ao Filho de Deus), permanece sacertote
perpétuamente.

Para a interpretação encerra certa importância neste caso uma observação gramatical. Estes versículos não formam mais do que uma só frase, que tem o sujeito no princípio e o verbo no final. Reduzida aos seus elementos principais, a frase diz: "Porque este Melquisedeque... permanece sacerdote para sempre".

Ao analisarmos mais de perto esses três versículos podemos ver que logo no início do capítulo 7 temos a conjunção "Porque". Essa conjunção põe essa frase em relação com a expressão com a qual termina Hebreus 6:20, aonde se proclama o sacerdócio eterno de Jesus. Podemos captar em tudo isso o caminho do pensamento do autor, que é certamente o seguinte: para comentar os versículos de Gênesis 14:18-20 ele os relaciona com o oráculo do Salmo 110:4 e descobriu que esses textos se iluminam mutuamente.
As duas especificações do oráculo do Salmo 110:4 ("para sempre" e "segundo a ordem de Melquisedeque") encontram, de certo modo, seu fundamento no texto de Gênesis. A qualificação "para sempre" tirada do Salmo 110:4 e aplicada em 6:20 ao sacerdócio de Jesus glorificado, faz eco em 7:3 a qualificação "para sempre" baseada no texto de Gênesis e aplicada ao sacerdócio de Melquisedeque. Contudo, as duas qualificações não são idênticas, sendo que a de Melquisedeque não expressa eternidade, senão a ausência de interrupção. Esta diferença revela que, aos olhos do autor Melquisedeque era sómente uma prefiguração do sacerdote eterno, como se fora um esboço, que se apresenta de forma imperfeita.
Outra expressão colocada no verso 3, manifesta com toda a clareza esse ponto de vista: Melquisedeque "foi feito semelhante ao Filho de Deus". Não era o Filho de Deus, porém o texto de Gênesis o descreve de tal maneira que sua figura evoca a do Filho de Deus.
Ao falar de "Filho de Deus" o autor supera todos os limites, não sómente do texto de Gênesis mas também do Salmo 110 e, indica assim o seu verdadeiro ponto de partida: a contenplação do grande Sumo-Sacerdote que penetrou nos céus, Jesus, o Filho de Deus. Entre as três etapas sucessivas da revelação (Gênesis 14:18-20; Salm0 110:4; glorificação de Cristo) descobre uma coerência perfeita. Sómente Cristo, o Filho de Deus poderia realmente fazer-se o "sacerdote para sempre" anunciado no Salmo 110:4 e por esse mesmo fato apresentar-se como aquele que havia sido prefigurado misteriosamente em Gênesis 14 com a figura de Melquisedeque.
O exame do nome e dos títulos de Melquiesedeque nos basta para mostrar que esse personagem representa Cristo, rei-messias e sacerdote. Efetivamente, o nome de Melquisedeque pode traduzir-se por "rei de justiça" e seu título de "rei de Salém" pode compreender-se como "rei de paz". A justiça e a paz eram os dons que se esperavam do Messias. Se adicionarmos o outro título de Melquisedeque, "sacerdote do Deus Altíssimo", se obtém a união do sacerdócio com a autoridade real, o qual corresponde exatamente a posição do Cristo glorificado, proclamado sumo-sacerdote.
Porém, como perceber essas características no texto de Gênesis 14, que não diz nada parecido? A resposta é simples: em vez de examinar as palavras do texto inspirado, temos que considerar os seus silêncios. E então se comprova que a Escritura omite, a propósito de Melquisedeque, a relação de vários detalhes que seriam de importância primordial, já que se trata de um sacerdote.
O livro de Esdras narra como ao voltar da Babilônia, alguns sacerdotes judeus que não puderam encontrar seus documentos de família se viram excluídos por esse motivo das funções sacerdotais ( Esdras 2:61-63).
Podemos notar que Melquisedeque é apresentado em Gênesis 14 sem que conste a menor menção de suas orígens familiares; aparece "sem pai, nem mãe, nem genealogia". Esta situação paradoxal nos faz pensar num sacerdócio particular, muito diferente do que previa a lei de Moisés.
Por outra parte, não se nos diz nada do nascimento de Melquisedeque, nem de sua morte: "sem começo de dias, nem fim de vida". Estas omissões tem o resultado de "assemelhar-lho ao Filho de Deus", cuja existência é eterna.
Queremos enfatizar novamente que o ponto de partida para essa interpretação do autor é o estado glorificado de Cristo, passando pelo Salmo 110 e daí chegando a Gênesis 14. Se o autor não tivesse feito isso teria caído em elucubrações fantásticas e perigosas como chegou a acontecer muitas vezes quando não foi seguido esse caminho trilhado pelo autor da Carta aos Hebreus.
O sacerdote ao qual Melquisedeque prefigura não é o Filho de Deus em Sua pré-existência, nem Jesus em sua vida terrena, senão Cristo, o Filho de Deus, glorificado como conseqüência de Sua paixão.
Na perspectiva do autor não era suficiente para Cristo o fato de ser Filho de Deus para possuir por isso mesmo o sacerdócio eterno, tãopouco lhe bastava o fato de ser o Filho de Deus encarnado. Era necessário uma transformação de sua humanidade, uma consagração sacerdotal de um novo gênero que o fizesse "perfeito". Ele se qualificou na morte e ressurreição.
De Cristo ressuscitado se pode dizer que é um homem "sem pai, nem mãe, nem genealogia" já que sua ressurreição foi uma nova geração de sua natureza humana, na qual não intervieram nem um pai, nem uma mãe humana, e que fez dele "um primogênito" sen genealogia.


3) Verso 4 a 10 - Melquisedeque e o sacerdócio levítico
Depois de haver assinalado uma relação de semelhança entre Melquisedeque e Cristo glorificado, o autor dirige sua atenção para as diferenças que existem entre o sacedócio de Melquisedeque e o dos sacerdotes hebreus.
A dificuldade aqui, consiste em encontrar um terreno onde se encontrem os dois sacerdócios que o Antigo Testamento nunca pôs em contato entre si. No relato bíblico há um espaço de vários séculos que separa Melquisedeque e os sacerdotes levitas. Como estabelecer uma relação entre eles? Com uma habilidade rabínica nosso autor sai triunfante em sua empresa utilizando os fatos que são referidos na Bíblia no encontro entre Melquisedeque e Abraão.
O primeiro fato é o pagamento de dízimos, por parte de Abraão, a Melquisedeque (Gên 14:20). O autor encontra aqui a ocasião para estabelecer uma comparaçào com o sacerdócio levítico que também arrecadava dízimos.

Verso 4-7 a : a comparação obriga o autor a citar novamente duas características que, segundo a seção anterior (versos 1 a 3), moldam o sacerdote Melquisedeque, qual seja, a ausência de genealogia e a existência não limitada (verso 3).
Em primeiro lugar se evoca a questào da genealogia, já que por constituir o vínxulo entre os levitas e Abraão permite superar a separação das duas épocas. A situação dos sacerdotes levíticos, que submetem ao dízimo aos demais israelitas que descendem, como eles, de Abraão, se compara então com a de Melquisedeque que, sem ter esta genealogia, submete contudo a Abraão ao pagamento do dízimo.

Verso 6 b-7: prescindindo por um momento desta percepção da questão dos dízimos, o autor recorre a outra questão significativa: a da benção, a fim de confirmar explicitamente a relação de superioridade. Podemos notar que Melquisedeque abençoou a Abraão e é o superior que abençoa e não o contrário.

Verso 8: temos aqui outro sinal da superioridade de Melquisedeque com relação ao sacerdócio levítico e é este: em nenhum lugar se relata que Melquisedeque tenha perdido o seu ofício sacerdotal pela morte, enquanto temos o registro, geração após geração, dos sacerdotes levíticos que morreram e tiveram que transmitir o ofício e a sua dignidade para os seus herdeiros.
O dízimo, prescrito na lei israelita, se pagava a homens mortais; o dízimo que Abraão deu a Melquisedeque, foi recebido por alguém que, no que diz respeito a narrativa bíblica, não teve fim de vida. O autor não está interessado em nenhum dado adicional que esteja fora da narrativa bíblica.

Verso 9 e 10: voltando, por um momento, à tribo de Levi, receptora dos dízimos, nosso autor assinala que pode dizer-se de Levi, o antecessor dessa tribo sacerdotal e a encarnação da sua personalidade corporativa, que o mesmo pagou dízimos a Melquisedeque (mostrando assim a superioridade do sacerdócio de Melquisedeque), na sua pessoa de seu antecessor Abraão. Levi foi bisneto de Abraão e ainda não havia nascido quando Abraão se encontrou com Melquisedeque; porém, no pensamento bíblico se considera que um antepassado contém em si mesmo todos os seus descendentes.

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